22 de junho de 2017
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Uma peça, um modo de ver

Designação Tríptico
Autor Desconhecido
Cronologia Séc. XIV-XV
Dimensões Alt. 1354 cm; Larg. 175 cm
Proveniência Guimarães, Colegiada de N.ª Sr.ª da Oliveira
Proprietário Museu de Alberto Sampaio
N.º de Inv. O 52

O tríptico de prata dourado visto por… Manuela de Alcântara Santos
«[...] um retábulo de prata dourada com estrutura interna de madeira, conhecido por retábulo do Nascimento, tríptico da Natividade, ou oratório do tesouro (Inv. O 52), que é uma das peças emblemáticas do Museu e uma obra-prima da ourivesaria medieval portuguesa – o único exemplar daquela tipologia, material e época que chegou até nós. Teve origem numa oferta do rei D. João I a Nossa Senhora da Oliveira. Fernão Lopes regista que depois da batalha de Aljubarrota o monarca veio “cumprir sua romaria” ao santuário vimaranense, em acção de graças pela vitória militar alcançada; e segundo a versão que merece maior crédito, já veiculada no inventário de 1527, D. João I terá doado à Senhora o equivalente ao seu peso em prata, de que depois foi feito o retábulo e outras peças menores: doze apóstolos, quatro anjos, quatro ceptros, uma caldeira com hissope e um turíbulo com a respectiva naveta. Estamos, assim, perante um histórico e esplendoroso ex-voto.
O seu tema principal é o Presépio, cuja relevância é sugerida pela grandeza e centralidade que assume no conjunto. O espaço da cena é indefinido: se os arcos de querena sobre os quais se erguem quatro corpos fenestrados de arquitectura gótica, sugerem uma catedral, a cama em que a Virgem repousa evoca um ambiente doméstico, e a manjedoura-altar vazia remete-nos para o estábulo tradicional, ao mesmo tempo que une simbolicamente os mistérios da Encarnação e da Redenção. O Menino, sentado sobre a cobricama, com um pequeno globo na mão esquerda, não parece um recém-nascido, é antes a imagem do Salvador do Mundo. Maria, em descanso após o parto, olha em frente, pensativa, como se visionasse e temesse o futuro do pequeno Infante. S. José, sentado aos pés da cama gótica, permanece alheado, olhos fechados, apoiado ao bordão. As cabeças dos animais tradicionais marcam a presença simbólica do povo judeu e dos gentios. Dois anjos agitando turíbulos vincam a sacralidade do momento.
Este modo de representar o Presépio com a Senhora deitada repete-se nas extraordinárias pinturas do tecto da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, e tem paralelo num baixo-relevo de Atouguia da Baleia, bem como em marfins franceses e alabastros ingleses.
Por outro lado, o esquema da Natividade/Redenção tem subjacente um programa teológico muito pensado, característico da arte românica (ALMEIDA, 1983: 13). No retábulo de Guimarães, um certo imobilismo iconográfico insere-se contudo num cenário micro-arquitectónico evoluído, plenamente gótico.
Nos volantes do tríptico, cada um dividido em dois registos sobrepostos, encimados por arcos trilobados e obra de “macenaria rica” (isto é, trabalho rendilhado, vazado), está patente, como num missal aberto, o restante ciclo litúrgico do Natal: no lado esquerdo, a Anunciação e a Apresentação do Menino no Templo; no lado direito, a Anunciação aos Pastores e a Adoração dos Magos. Todos os quadros merecem um exame pormenorizado. Na Anunciação – prólogo do Nascimento –, um S. Gabriel de longas asas esvoaçantes e filactera ondulada contracena com a Virgem, que recebe a mensagem de pé, o vaso de açucenas entre ambos. No registo inferior, a Senhora da Apresentação/Purificação sustenta Jesus sobre o altar, seguida de sua “servidora” com um círio e um canistel, com pombos dentro, para a oferenda ritual. No painel da direita, em cima, um pastorinho, de saio e capirote, perna cruzada e sapatos de pontilha, toca gaita-de-foles, enquanto outro escuta o anjo anunciador da boa nova; um carvalho estilizado e o rebanho espalhado em redor denotam o ambiente rural. Finalmente, os três Reis Magos surgem representados de acordo com os modelos tradicionais, com os presentes simbólicos, o mais velho ajoelhado, o mais novo em trajes galantes da época. Significando simultaneamente as diversas idades do Homem e os três continentes então conhecidos, os Magos introduzem consigo toda a Humanidade no acto de adoração ao Deus Menino.
Nos cantos superiores do painel central, dois anjos seguram o escudo de Portugal-Avis, na forma usada pelo régio doador nos primeiros anos de reinado. É uma marca de afirmação pessoal, que se encontra repetida no janelão da Colegiada, nas lápides comemorativas da renovação joanina do templo e nas traves pintadas do tecto, na clara intenção de associar a figura do rei ao santuário tutelar de Guimarães.
São de realçar certos pormenores pitorescos, bem como o valor documental dos acessórios e do vestuário. Registe-se também o primor da execução técnica, evidenciado no modelado das figuras, nos rendilhados da micro-arquitectura, nos fundos martelados, nas carnações e nos esmaltes que introduzem pontualmente notas de cor.
Peça muito prezada pelos cónegos, este tríptico era exposto sobre o altar durante a festividade do Natal, e estava presente no exterior do templo, nas cerimónias comemorativas de 14 de Agosto de 1385. No século XV, foi remido pelo Cabido, para evitar que fosse tomado e mandado fundir por D. Afonso V. Os “visitadores” de 1537, 1538 e 1540 repetidamente determinaram que as portas do retábulo se pintassem exteriormente “de boa pintura” (SOARES, 1995: 299, 315, 322), mas a que actualmente aí se pode ver – uma Anunciação aos pastores – é demasiado modesta e não acompanha em merecimento o trabalho de ourivesaria[...]».
Manuela de Alcântara Santos

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